ROTEIRO DA PRODUÇÃO FICCIONAL
“Sete – Um jogo de 7 acertos”
LUPPA PRODUÇÕES
CENA 01: QUARTO DE FLICTS / INTERNA
Flicts está sentando em sua cama, olhando para o nada, perdido. Sem motivo aparente, olha para seu corpo. Analisa com cuidado suas mãos, braços e passa os dedos pelos cabelos. Levanta-se e vai até um grande espelho em frente à cama.
(FLICTS – INEXPRESSIVO) – Vazio: Que não encerra nada ou só ar; despovoado; despejado; destituído; fútil, oco; desprovido.
A expressão de Flicts demonstra sua percepção de que a definição de vazio diz respeito a ele próprio.
(FLICTS – COMO QUEM TOMA CONSCIÊNCIA) – Eu sou vazio.
Flicts pensa por poucos segundos em silêncio, como se olhasse para dentro de si.
(FLICTS – COM ALGUMA CONVICÇÃO) – Preenchimento: Derivação de preencher. Encher completamente; completar; ocupar. Cumprir plenamente. (ENFÁTICO, MAS INSEGURO) Eu preciso de preenchimento. Mas eu não posso encontrar aqui dentro, sozinho.
Sr. X, a inveja, entra no quarto e pára atrás de Flicts em frente ao espelho.
(SR. X – COM DESDEM) – Preenchimento? Para que preenchimento? O mundo lá fora não vai te ensinar nada, Flicts. É melhor ficar aqui, no seu vazio. Não questione, apenas conforme-se.
(FLICTS – COMO QUEM NEM OUVIU O QUE SR. X DISSE) – Eu quero a atração do vermelho. A luz do amarelo. A paz do azul. Que cor eu sou? Eu sou a cor de quê? Amarelo é a cor do sol. Azul, a dor mar. E Flicts, é a cor do quê?
Flicts caminha em direção à porta e a abre. Olha para trás, como quem procura a aprovação de Sr. X, que continua a olhar para Flicts com pouco caso. Hesitante, Flicts sai e é seguido por Sr. X.
CENA 02: CORREDOR / INTERNA
Flicts e Sr. X estão em um longo corredor, com diversas portas dos dois lados. Flicts dá alguns passos, enquanto Sr. X está parado encostado no batente da porta do quarto de Flicts com a mão na cintura e a perna dobrada..
(SR. X – COM DESDEM) – Volta, Flicts. Volta aqui pra dentro (apontando para dentro do quarto de Flicts), esse é o seu lugar (disfarçando uma cara de nojo). O que você espera encontrar aí? As coisas atrás dessas portas são muito piores do que você pode imaginar, você não vai querer saber.
Flicts continua andando. Sr. X percebe que Flicts não vai voltar e se apressa para alcançá-lo no corredor. Flitcts caminha para uma porta roxa, como se estivesse hipnotizado pela cor. Pendurada na porta há uma placa com algo escrito que Flicts não tem tempo de ler, pois é puxado por Sr. X.
(SR. X – UM POUCO TENSO, MAS DISFARÇANDO) – Ok. É isso que você quer? Então espero que não se arrependa. Depois não diga que eu não te avisei.
Sr. X direciona Flicts para uma porta vermelha. A placa pendurada na porta diz “A atração do vermelho”. Sr. X abre a porta e convida Flicts a entrar.
CENA 03: QUARTO DE LINDA / INTERNA
Flicts entra no quarto. Linda, está sentada em sua penteadeira se olhando no espelho e penteando os cabelos. Flicts observa a moça com interesse e curiosidade. Esboça um sorriso e algum encantamento por sua beleza. Flicts se senta na cama, coberta por uma colcha vermelha, e fica observando, vidrado, o reflexo de Linda pelo espelho. Sr. X olha com muito interesse para as coisas sobre a penteadeira de Linda, e tenta se olhar no espelho com discrição, para que Flicts não o perceba. Toca os cabelos de Linda com cara de nojo.
(SR. X – COM DESDEM) – Não sai na chuva, viu, bem…
Sr. X se senta na cama, ao lado de Flicts.
(SR. X – COM FIRMEZA) – Vermelho! Alguns dizem que é a cor da coragem. Mas para ela é só a cor da vaidade.
Linda pega um espelho de mão sobre a penteadeira e se vira para Flicts e Sr. X, sem nunca deixar de se olhar e de ajeitar os cabelos.
(LINDA – DESLUMBRADA CONSIGO MESMA) – Desejo imoderado de merecer a admiração dos outros.
(SR. X – SE DEIXANDO DESLUMBRAR PELA BELEZA DE LINDA, MAS CONTRARIADO) – Qualidade do que é vão, instável ou de pouca duração. Presunção mal fundada de si, do próprio mérito.
(LINDA – DESLUMBRADA) – Vanglória, ostentação.
(SR. X) – Coisa vã, fútil, sem sentido. Presunção.
Flicts se levanta da cama encantado por conhecer a vaidade. Anda até Linda, como quem vai tocá-la, mas, na verdade, a empurra da frente do espelho para se olhar. Sr. X vai atrás de Flicts para afastá-lo dos objetos de Linda, mas também tenta se enxergar no espelho e ajeita os cabelos, ao mesmo tempo que olha para Linda com pouco caso. Flicts observa tudo sobre a penteadeira. Pega um colar vermelho sobre o móvel e o coloca no pescoço. Nesse momento, Linda abre um largo sorriso, e Sr. X puxa Flicts e o empurra em direção à porta.
(SR. X – COM DESDEM) – Beleza. É só beleza. Ninguém fica bonita para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o que você guarda aí dentro vai atravessar sua pele, seus cabelos, e vai se refletir em um monte de rugas, espinhas e verrugas. Esses perfumes caros vão cheirar enxofre (com cara de nojo) Aí eu quero ver!
(LINDA – CONTRARIADA E INSEGURA) – É claro que eu vou ficar bonita para sempre! Meu vermelho pode ser até mais bonito do que a cor da Lua! (olhando para Flicts com raiva) De que vale uma vida sem beleza? Quem é que enxerga o lado de dentro das coisas? Você. Você está vendo o lado de dentro de alguma coisa, aqui? (apontando para Flicts) Então pare de falar besteiras! (apontando para Sr. X) De que adiantaria a Lua ser maravilhosa por dentro se o que a gente enxerga daqui fosse um queijo mofado? Não poupo esforços e nem dinheiro, faço o que for preciso para ficar mais e mais bonita. Quero beleza, conforto, luxo. Não poupo. Não poupo nada para ter o melhor!…
Flicts percebe o quanto a beleza pode ser vulnerável. Abre a porta e sai com o colar vermelho de Linda no pescoço, acompanhado por Sr. X, enquanto Linda continua a falar.
CENA 04: CORREDOR / INTERNA
Flicts fica parado no corredor, em frente à porta vermelha. Sr. X anda à sua frente.
(SR. X – DETERMINADO) – Você viu coisas bonitas demais, mas completamente podres. Agora vai ficar tomado por essa obsessão… Ela pensa que é melhor que todo mundo… (como quem está falando sozinho) Já que você pediu pra ver, agora vai ver tudo. Anda! Não fica parado aí, não! Você precisa ver só que beleza de lugar a gente vai visitar agora… (com muita ironia)
Flicts anda rapidamente até Sr. X, que está parado em frente à uma porta amarela, onde há uma placa pendurada com a seguinte frase: A luz do amarelo.
Sr. X abre a porta e entra, sem ligar para Flicts. Ficts entra em seguida.
CENA 05: GALPÃO / INTERNA
Dentro do galpão, Maximillian está sentado em um banquinho assistindo uma TV de 10 polegadas, comendo um pão seco e bebendo um copo d’água. No fundo do galpão, um grande cofre chama a atenção de Flicts, que tenta se aproximar, mas é bloqueado por Maximillian. Ele passa o braço pelo ombro de Flicts, caminha em direção ao cofre e o abre.
(MAXIMILLIAN – QUASE SUSSURRANDO) – Tá vendo isso aqui? É meu! Tudo, tudo, tudo meu.
Sr. X se aproxima sorrateiro e tenta pegar algum dinheiro de dentro do cofre, mas Maximillian o fecha com rapidez.
(FLICTS – INDGNADO) – Por que você vive assim se tem todo esse dinheiro guardado aí?
(SR. X – COM DESDEM) – Não adianta, meu caro Flicts. Amarelo pode até ser a cor do sol, da alegria e transmitir felicidade. Mas pra esse aí, o amarelo é dourado. É a cor do ouro. Do dinheiro! Desse dinheiro inútil, que não faz bem pra ninguém. Amarelo é a cor da avareza!
Maximillian enfia a mão no bolso e tira um punhado de moedas douradas. Flicts é atraído pelas moedas, que parecem brilhar.
(MAXIMILLIAN – COM APEGO, OLHANDO PARA AS MOEDAS) – Apego demasiado e sórdido ao dinheiro. Desejo imoderado de adquirir e acumular riquezas.
(SR. X – RETRUCANDO) – Mesquinhez, sovinice. Muquiranice, mesmo.
Flicts pega as moedas da mão de Maximillian, que as entrega com alguma relutância, mas satisfeito por perceber que o dinheiro o está conquistando. Uma delas cai aos pés de Sr. X, que a pega do chão e a guarda rápida e discretamente.
(SR. X – COM DESDEM) – Dinheiro… Você acha que compra felicidade? Que felicidade é essa se você não tem nem uma TV de 42 polegadas? Pra que tanto dinheiro se vai viver desse jeito, comendo mal, morando mal… e sozinho, já que é incapaz de pensar em qualquer outra que não seja acumular mais e mais dinheiro pra você, só pra você!
(MAXIMILLIAN – COM APEGO) – Eu sou a cor do sol. Mas com o que eu tenho aqui, se quiser, posso pagar para ser também a cor da Lua! (olhando para Flicts com pouco caso) Você ainda acha que eu preciso de alguém? Se eu fosse a cor da Lua, o céu seria meu. Só meu. Inteirinho meu. (olhando para cima)
(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Você sabe que não é bem assim…
(MAXIMILLIAN – DECIDIDO) – Eu não quero nada que acabe, que diminua. Eu não quero dividir. Eu não quero saber dos outros. Ema, ema, ema, cada um no seu quadrado! Eu quero minhas coisas aqui, comigo, pra sempre. Moro muito bem e como muito bem! Enxergo tudo aqui nessa TV e pão e água são mais do que o suficiente para matar minha fome.
Maximillian toma as moedas da mão de Flicts e as segura com firmeza. Flicts olha para a mão com a qual segurava as moedas e percebe que seus dedos estão amarelos.
Flicts e Sr. X são colocados para fora por Maximillian, que fecha a porta grosseiramente.
CENA 06: CORREDOR / INTERNA
Flicts e Sr. X vão andando pelo corredor.
(FLICTS – CURIOSO) – Pão e água matam sua fome?
(SR. X – SURPRESO) – Por que você quer saber de mim? Achei que estivéssemos aqui para saber de você! Pão e água matam a sua fome?
(FLICTS – CONFUSO) – Não sei.
(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Então já sei a quem você precisa ser apresentado agora.
Sr. X pára em frente à uma porta laranja, onde há uma placa pendurada que diz “A grandiosidade do laranja”.
Flicts abre a porta e entra, com curiosidade.
CENA 07: COZINHA / INTERNA
Flicts e Sr. X entram em uma grande cozinha. Sobre a pia estão bolos, tortas, salgados e frutas. Carolina esta sentada à mesa comendo um balde de pipoca, escrevendo no computador e falando ao celular (em off). Flicts corre para a pia e começa a comer um pedaço de bolo.
(FLICTS – COM A BOCA CHEIA) – Isso é bem melhor do que pão e água!
(SR. X – COM DESDEM) – Você sabia que o Laranja é cor da “Visão do Futuro”? Mas – quanta ironia! – essa daí só vê presente. Você não acredita no futuro, por isso precisa fazer tudo ao mesmo tempo, o máximo que puder? (se dirigindo à Carolina) Contraditório, não!?
(CAROLINA – ACELERADA, FALANDO AO TELEFONE E DE BOCA CHEIA) – Excesso na comida e na bebida.
Sr. X pega um pedaço de doce e coloca na boca rapidamente, enquanto Flicts observa Carolina intrigado.
(SR. X – ACELERADO) – Gula intelectual.
(CAROLINA – ACELERADA, FALANDO AO TELEFONE E DE BOCA CHEIA) – Predileção para boas iguarias.
(SR. X – IRÔNICO) – Forma de fuga das dificuldades e dos próprios sentimentos.
A essa altura, Flicts está comendo quase tudo o que está sobre a pia enquanto joga no celular. Sr. X se aproxima de Flicts, o segura e lha dá uma sacudida.
(SR. X – COM DESDEM) – Vai comer e beber tudo o que puder, Flicts? Fazer tudo ao mesmo tempo? Eu não tenho celular e nem computador porque eu não quero, acho uma perda de tempo… E esse monte de comida? Olha só o que essa fulana virou! Se comesse uma bolacha de cada vez, ao invés de 3 quilos de bolacha ao mesmo tempo, talvez não estivesse nesse estado deplorável.
(CAROLINA – ACELERADA) – Cala boca, sua coisa esverdeada! Por que você não me deixa em paz? (Sr. X faz que vai responder, Carolina corta) Ah, eu sei. Sei bem! Você não deixa ninguém ter paz porque você não consegue ficar em paz. Coitado desse aí… (apontando para Flicts) Não faz nem idéia de com quem está se metendo. Pode falar o que quiser, eu sei de mim. Aliás, eu bem sei de todos nós, tentando com unhas e dentes apagar a cor da Lua. (Flicts não dá atenção porque está entretido com um pedaço de comida) Mas o que vocês sabem de vocês, ou não sabem (se voltando a Flicts), é problema de vocês. Eu sei que eu tenho que voar para ter tempo de fazer tudo o que eu quero. Melhor correr atrás enquanto eu posso do que ficar sentada, esperando, com preguiça! (enfática, como se tivesse um pouco de raiva da preguiça – a última palavra chama a atenção de Flicts)
(SR. X, QUASE RINDO) – É, então corre atrás agora mesmo, porque logo, logo você não vai mais conseguir nem levantar dessa cadeira. Logo, logo você não vai poder cor-rer atrás, você vai ro-lar atrás! (já gargalhando) Vai acabar mais redonda que a Lua cheia…
Flicts cutuca Sr. X e Carolina, chamando a atenção de ambos e lambendo os dedos com restos de algum doce que acabou de comer.
(FLICTS – CURIOSO, DE BOCA CHEIA) – Ow, preguiça também é de comer?
(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Não, Flicts. Preguiça é o oposto disso aqui. Isso aqui é a gula, meu caro. Gula! (olhando firme para Carolina) É querer tudo ao mesmo tempo, sempre mais, sem limite, sem limite, sem limite! É não aproveitar nenhum momento da vida por pensar o tempo todo que poderia fazer mais alguma coisa além de tudo o que já está fazendo, comer mais alguma coisa além do que está comendo, saber mais alguma coisa além do que já está sabendo (falando ritmado, em soquinhos), aaah! A preguiça é ao contrário. É não quer nada em tempo nenhum. Anda, vamos embora daqui enquanto você ainda consegue andar. Capaz de daqui a pouco eu ter que te empurrar rolando.
Sr. X atravessa a cozinha em direção à porta. Pensando não estar sendo visto, pega um pedaço de bolo e enfia rapidamente na boca, mas Carolina percebe e o dedura. Antes que Flicts possa entender o que Carolina está dizendo, Sr. X o puxa correndo para fora da cozinha. No caminho, Flicts pega alguma coisa, enfia na boca e a cobre com a mão, enquanto mastiga algo aparentemente muito maior do que é capaz. Ao tirar a mão da frente da boca, seus lábios estão cor de laranja.
CENA 08: CORREDOR / INTERNA
Flicts e Sr. X estão no corredor novamente. Flicts parece querer tirar com a língua alguns pedaços de comida que ficaram presos em seus dentes. Em seguida, tira do bolso um celular, e ensaia começar a jogar, mas Sr. X toma o aparelho de suas mão e o guarda no bolso. Flicts está encostado em uma parede, bem próximo à porta de Carolina. Sr. X sai andando, Flicts não acompanha.
(FLICTS – SONOLENTO) – Vai com calma Sr. X. Pra que a pressa?
(SR. X – COM SACO CHEIO) – Ah, ninguém merece! Nem conheceu a preguiça ainda e já esta se arrastando pelo chão!?
Sr. X aponta para uma porta azul anil e caminha em direção a ela, como se puxasse Flicts à distância. Flicts caminha lentamente, com uma das mãos na barriga e a outra coçando os olhos. Pendurada na porta há uma plaquinha bem torta, com a frase “A calma do azul” escrita na diagonal, como se quem a escreveu tivesse se cansado no meio do caminho.
Sr. X abre a porta e faz uma reverência para que Flicts entre. Flicts passa tentando se apressar, mas demonstrando esforço em transportar uma barriga tão cheia.
CENA 09: SALA DE ESTAR / INTERNA
Flicts entra na sala de estar, completamente suja e bagunçada. Domingos está deitado no sofá com uma lata na mão e um pedaço de pizza sobre a barriga. Flicts observa a tudo com expressão de surpresa e um pouco de nojo. Sr. X também observa, mas com cara de desaprovação. Os dois retiram algum lixo de cima de um sofá e se sentam lado a lado.
(SR. X – COM DESDEM) – Anil… Era para ser um vencedor. Alguém impetuoso, disposto, preocupado com os outros. Mas a única preocupação desse ser é se o entregador de pizza vai entrar ou ele terá que levantar para ir até a porta. Onde cabe tanta preguiça!?
(DOMINGOS – MUITO MOLE, COMO SE O QUE SENTE FOSSE MUITO NATURAL) – Pouca disposição para o trabalho; aversão ao trabalho; inação.
(SR. X – IMITANDO A PREGUIÇA DE DOMINGOS) – Demora ou lentidão em fazer qualquer coisa.
Sr. X espera que Domingos fale, olha para ele como se pedisse lhe para ir em frente. Domingos olha para Sr. X como se quem devesse falar fosse ele; a não ver reação de Sr. X, faz um sinal molenga com a mão mostrando um dicionário jogado no chão, para que o outro leia e continue. Sr. X se abaixa, pega o livro e lê.
(SR. X – REMEDANDO) – Indolência, moleza; morosidade, negligência.
Sr. X joga o dicionário de volta no chão.
Flicts se deita no sofá, bocejando e esticando os pés por cima de Sr. X. Dá uma espreguiçada, tateia embaixo do sofá, encontra uma latinha e dá um gole.
(FLICTS – ESTRANHANDO) – Ô Domingos, isso é suco de… teia de aranha?
Sr. X se levanta com raiva, empurrando os pés de Flicts.
(SR. X – COM DESDEM) – Fica aí, dormindo para sempre. Vai ver que é esse o seu lugar, Flicts.
(DOMINGOS – COM PREGUIÇA, OLHANDO PARA FLICTS) – A cor da lua tá me dando uma moleza…
(SR. X – REPREENDENDO) – Cala a boca, seu bicho mole! Mais uma palavra e eu vou te dar um chute tão forte no traseiro que é lá na Lua que você vai parar. (faz um gesto com a mão como quem joga uma bola para cima e dá um forte chute)
Domingos chacoalha os ombros e dá uma mordida em seu pedaço de pizza.
Os três se entreolham por alguns segundos, como se um esperasse que o outro dissesse alguma coisa.
Sr. X dá uma espreguiçada discreta e engole um bocejo.
(SR. X – EM UMA EXPLOSÃO) – Nossa, você tem o dom de me tirar do sério! Essa marcha lenta, esse deixa que eu deixo… aaaah! (falando, zombando, até ficar irritado) Fica. Fica aí pra sempre, que se dane. E você, se quiser, fica também.
Flicts se levanta do sofá de sopetão, como quem quer mostrar que não quer ficar.
(DOMINGOS – MOLE) – As pessoas lá foram perderam a noção, viu, Flicts? Ta todo mundo maluco, irado com o mundo. Olha aí… (apontando para Sr. X)
(FLICTS – CURIOSO) – Irado?
Domingos aponta o dicionário no chão. Flicts faz que vai pegar, mas encontra jogada ao lado do livro uma camiseta de pijama azul anil e a veste.
(SR. X – COM SUPERIORIDADE, UM POUCO IRRITADO) – São pessoas que estão com raiva, Flicts. Que brigam por tudo e por nada. Se você não levantar logo dessa droga de sofá, vai ver a in… eu me transformar na Ira em pessoa!
Sr. X caminha rapidamente em direção a porta e sai da sala. Flicts se levanta devagar.
(FLICTS – COM PREGUIÇA) – Espera aí! Me espera! Acho que eu não vou dormir, não…
Flicts caminha lentamente até a porta e sai.
CENA 10: CORREDOR / INTERNA
Sr. X abre uma porta, bem à frente de Flicts. Olha para dentro com estranheza, como se estivesse procurando alguma coisa. Olha para o corredor, para um lado e para o outro. Flicts está começando a acelerar o passo em direção a Sr. X quando alguém passa por ele muito rapidamente, lhe dando uma trombada brusca. Flicts cai no chão e vê apenas os pés da pessoa que o derrubou andando velozmente em direção ao Sr. X.
Flicts se levanta com dificuldade, e vê Sr. X ser empurrado para fora do cômodo, por alguém que já está do lado de dentro. A porta é batida com força na cara de Sr. X e a placa que estava pendurada no topo da porta cai no chão.
Flicts corre até Sr. X, parado em frente à porta.
Tomado por uma coragem súbita e por muita curiosidade, pega na mão de Sr. X, abre a porta e entra.
CENA 11: GARAGEM / INTERNA
Flicts e Sr. X entram e observam, no fundo da garagem, Iraldo esmurrar com violência um saco de boxe.
(SR. X – QUASE SUSSURRANDO, MAS COM DESDEM) – Este é o Azul. Era para ser a cor da harmonia, mas esse azul está tão tomado pela ira que está quase preto.
(IRALDO – COM RAIVA, FALANDO ALTO) – Cólera, raiva contra alguém. Indignação. Desejo de vingança.
Flicts caminha até Iraldo e começa a esmurrar o saco também. Parece estar tomado pela raiva.
(IRALDO – COM RAIVA) – Seu inútil, não sabe bater nem em um saco! Vem brigar comigo, vem! (indo para cima de Flicts) Quero ver, quero rir da sua cara toda ensangüentada! Seu fraco! Seu cretino!
Flicts encara Iraldo com muita raiva nos olhos, e bate no saco cada vez com mais força.
Nesse momento, Sr. X está observando o próprio muque, e dando leves socos em uma parede.
Iraldo continua a bater no saco de boxe.
(SR. X – COM DESDEM) – Vai, continuem, tô achando o máximo. Tá mais tosco que comédia da Sessão da Tarde. Estão parecendo duas maricas nervosinhas, rebeldes sem causa. (zombando)
(IRALDO – COM RAIVA) – Você está pedindo, seu palhaço verde. Vou quebrar a sua cara! Você quer chamar a minha atenção para eu me distrair e sair de perto do meu saco de boxe, porque você quer o saco pra você. Eu te conheço de outros Carnavais… Você distorce tudo, mistura… Você pode misturar o que você quiser, pode até tentar encher a cor da Lua de verde, vermelho ou amarelo… Porque a Lua é burra! (apontando para Flicts), a Lua não sabe de nada. Mas o meu escuro você não confunde.
(SR. X – NERVOSO) – Pára de falar, Iraldo! O que é que você está querendo? Todo mundo vai se revoltar contra você! (gritando) Mas como eu sou imbecil, é isso mesmo que você está querendo! Anda Flicts, vamos embora daqui.
Flicts está com cara de dúvida, como quem está pensando muito. Sr. X pega em seu braço violentamente e o puxa para fora da sala. Ao sair, Flicts está com profundas olheiras azuis marinho, quase pretas.
CENA 12: CORREDOR / INTERNA
Flicts e Sr. X saem da sala abruptamente e ficam parados no corredor, em silêncio.
(FLICTS – INTRIGADO) – Tô aqui pensando… Por que todo mundo disse alguma coisa sobre a Lua?
(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Se liga, moleque. Você está viajando.
(FLICTS – UM POUCO OFENDIDO) – Eu não sou burro não, viu? O que o Iraldo quis dizer? Anda, desembucha!
(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Você tá louco? Tá me dando ordem? Então chega. Já passou da hora de você voltar pro seu canto.
(FLICTS – SE IMPONDO) – Não vou voltar, não. Eu não esqueci. O que é que tem atrás daquela porta?
Flicts aponta para a porta roxa, que parece brilhar.
(SR. X – TENSO) – Chega. Chega, chega, chega! Anda, volta pro seu canto, eu tô indo embora.
(FLICTS – COM DESDEM) – O que foi, coisa verde? A porta é tão bonita! O que tem ali atrás só pode ser lindo! (Flicts mexe no colar vermelho) Por que você não quer entrar? Não quer me contar, é isso? É alguma coisa que só você pode saber? Não dividir as coisas é feio, Sr. X… é pecado. (olhando para os dedos amarelos) Eu quero saber! Quero saber tudo, quero saber mais e mais! (passando a língua pelos lábios cor de laranja) Ou será que você está com preguiça de dizer? Criticou tanto o pobre coitado lá e ta fazendo pior. (puxa a camiseta azul e olha para ela quando diz ‘o pobre coitado’) Anda, X. Não vai adiantar fugir, seu marica! (como se quisesse partir para cima de X, apertando os olhos sobre as olheiras azuis marinho).
Sr. X segura Flicts e o corta, falando brandamente.
(SR. X – BRANDO) – É o mais perigoso de todos os pecados, Flicts. Depois de conhecê-lo, você não vai poder voltar atrás. Não vai poder voltar para o seu canto e esquecer que isso tudo aconteceu.
(FLICTS – CURIOSO, MAS DETERMINADO) – Eu quero ver. Você acha que agora eu ainda poderia voltar para trás e esquecer? Eu preciso acabar o que eu comecei. E você também precisa!
Flicts e Sr. X vão caminhando em direção à porta. Flicts, empolgado. Sr. X, se arrastando.
(SR. X – CONFORMADO) – Vai. Você abre a porta.
CENA 13: BANHEIRO / INTERNA
Flicts e Sr. X entram em um banheiro tomado pelo vapor de um banho quente. Virginia está na banheira, coberta por espuma até os ombros. Roupas íntimas muito sensuais e alguns apetrechos sexuais que remetem ao sadomasoquismo, como algemas e chicotes, estão espalhados pelo chão. A impressão é a de que alguém acabou de sair dali. Flicts parece hipnotizado, e se senta na beirada da banheira. Sr. X apenas observa, de pé ao lado da banheira, muito receoso, como quem se resguarda por saber que não pode se deixar envolver.
(SR. X – APREENSIVO) – Roxo. Flicts, você não precisava conhecê-la… Eu sinto muito. O que será de você? (como quem está sofrendo falsamente) Roxo é a cor do calor humano. E Virgínia leva isso ao pé da letra. É muito mais literal do que qualquer outro ser poderia ser. Ela esquenta… é só o que saber fazer.
(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE) – Exuberância da seiva.
(SR. X – SE DEIXANDO LEVAR POR VIRGÍNIA) – Cio.
(VIRGINIA – SE INSINUANDO PARA FLICTS E PARA O SR. X) – Corrupção de costumes, lascívia, sensualidade.
Flicts parece estar anestesiado, como se naquele momento tivesse perdido completamente a inocência. Olha fixamente para Virgínia e demonstra a intenção de tocá-la.
(SR. X – COM DESDEM E IRONIA) – Vai, Flicts… Se é assim que você acha que vai se encontrar, vai. Acaba mesmo com o que você é, perca o fim da essência que você ainda tem. Se perca. Se perca completamente! (falando mais baixo, como se não quisesse que Flicts o ouvisse) Você nunca soube de nada, vai saber menos ainda, agora. (satisfeito, deixando claro que, desde o início, sua intenção era confundir Flicts ainda mais, e não ajudá-lo a se encontrar)
Flicts olha para Virginia e para Sr. X. Flicts começa a entender o que está acontecendo, mas prefere esconder isso de Sr. X e continua a fingir que está confuso.
(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE) – Eu sou a única que te dá todas as coisas do mundo. Eu tenho a beleza da vaidade. (mexendo nos cabelos, tocando o próprio rosto) Eu tenho a obsessão da ira. (vai com as mãos ao pescoço de Flicts, como quem vai enforcá-lo) Eu tenho o relaxamento da preguiça… (saindo de perto de Flicts e se espreguiçando sensualmente) Eu tenho a fome da gula. (come um morango e dá um gole em uma taça de champanhe) Eu tenho o apego da avareza. (com uma toalha de banho, envolve Flicts e o aproxima com voracidade, como se quisesse ter todos os homens do mundo) Mas o que eu tenho de melhor, é a completa realização por ser tudo (com ênfase) que a inveja (olha profundamente e com desdém para Sr. X) jamais será.
Flicts olha para Sr. X sem conseguir disfarçar que entendeu o papel de X em sua história, com um misto de decepção e desprezo. Ainda assim, não consegue se desvencilhar de Virginia, que a essa altura está com as mãos em seu corpo, quase o puxando para dentro da banheira. Sr. X desvia o olhar dos dois.
(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE E IRONIA) – Olha aqui, X, olha… Eu estou conquistando até a cor da Lua. E você sabe que uma vez aqui, era uma vez… Nem a força da Lua é mais forte do que eu.
(SR. X, NÃO SE IMPORTANDO NEM UM POUCO) – Ah, falou a rainha da cocada roxa! Que se dane…
Sr. X sai do banheiro. Flicts olha fixamente para Virginia por mais alguns segundos, pensativo, e, em seguida, a empurra, se levanta e sai lentamente. Os olhos de Flicts estão violeta.
CENA 14: CORREDOR / INTERNA
Flicts caminha rapidamente sozinho no corredor, em direção a uma porta flicts (cor), no fundo. Passa por Sr. X, encostado em uma parede, sem sequer olhar para ele. Flicts abre a porta flicts (cor) e sai.
CENA 15: RUA / EXTERNA / ANOITECER
Flicts caminha pela rua. Ao longe, a Lua está cheia, mas coberta por uma forte névoa. Flicts caminha até sumir. Quando Flicts desaparece, a Lua brilha muito.
CENA 16: QUARTO DE LINDA / INTERNA
Linda está sentada em sua penteadeira, tirando a maquiagem e observando as imperfeições de seu rosto.
(NARRADOR) – Por um momento, Linda decidiu tirar a máscara e tocar sua verdade.
CENA 17: GALPÃO / EXTERNA
Maximillian está sentado em seu banquinho segurando um pequeno cachorrinho e dando comida para ele.
(NARRADOR) – No silêncio da noite, Maximillian pôde perceber o quanto é satisfatório dividir e ajudar.
CENA 18: COZINHA / INTERNA
Carolina desliga o computador e os telefones, cobre a comida sobre a mesa e apaga a luz.
(NARRADOR) – No cair da noite, Carolina percebe o quanto é importante parar para às vezes poder prosseguir.
CENA 19: SALA / INTERNA
Domingos, que estava deitado no sofá, se levanta e começa a recolher o lixo à sua volta, com disposição.
(NARRADOR) – Domingos parece ter percebido que o fato de existir pode ter alguma razão.
CENA 20: GARAGEM / EXTERNA
Iraldo está sentado no chão, ao lado do saco de boxe, olhando um álbum com fotos de sua infância.
(NARRADOR) – Por um momento, Iraldo sente saudades da tranqüilidade de ser criança.
CENA 21: BANHEIRO / INTERNA
Virginia está de pé, abotoando um pijama de calças e mangas compridas enquanto sua banheira esvazia.
(NARRADOR) – Pode ser que Virginia tenha se dado conta de que o amor da carne só é completo com o amor do coração.
CENA 22: CORREDOR / INTERNA
Sr. X está encostado em uma parede, e percebe que ficou sozinho. Senta-se no chão e olha para si mesmo. Ele ri e se deita no chão, gargalhando.
(NARRADOR) – Talvez Sr. X consiga perceber um dia que a melhor coisa que se pode ter é a consciencia de quem se é. E ele não tem.
CENA 23: RUA / EXTERNA
A Lua cheia brilha, cortada por um não menos brilhante arco-íris.