Junho 26, 2009

Dá licença, seu Ziraldo, aqui é universidade!

ROTEIRO DA PRODUÇÃO FICCIONAL
“Sete – Um jogo de 7 acertos”
LUPPA PRODUÇÕES

CENA 01: QUARTO DE FLICTS / INTERNA

Flicts está sentando em sua cama, olhando para o nada, perdido. Sem motivo aparente, olha para seu corpo. Analisa com cuidado suas mãos, braços e passa os dedos pelos cabelos. Levanta-se e vai até um grande espelho em frente à cama.

(FLICTS – INEXPRESSIVO) – Vazio: Que não encerra nada ou só ar; despovoado; despejado; destituído; fútil, oco; desprovido.

A expressão de Flicts demonstra sua percepção de que a definição de vazio diz respeito a ele próprio.

(FLICTS – COMO QUEM TOMA CONSCIÊNCIA) – Eu sou vazio.

Flicts pensa por poucos segundos em silêncio, como se olhasse para dentro de si.

(FLICTS – COM ALGUMA CONVICÇÃO) – Preenchimento: Derivação de preencher. Encher completamente; completar; ocupar. Cumprir plenamente. (ENFÁTICO, MAS INSEGURO) Eu preciso de preenchimento. Mas eu não posso encontrar aqui dentro, sozinho.

Sr. X, a inveja, entra no quarto e pára atrás de Flicts em frente ao espelho.

(SR. X – COM DESDEM) – Preenchimento? Para que preenchimento? O mundo lá fora não vai te ensinar nada, Flicts. É melhor ficar aqui, no seu vazio. Não questione, apenas conforme-se.

(FLICTS – COMO QUEM NEM OUVIU O QUE SR. X DISSE) – Eu quero a atração do vermelho. A luz do amarelo. A paz do azul. Que cor eu sou? Eu sou a cor de quê? Amarelo é a cor do sol. Azul, a dor mar. E Flicts, é a cor do quê?
Flicts caminha em direção à porta e a abre. Olha para trás, como quem procura a aprovação de Sr. X, que continua a olhar para Flicts com pouco caso. Hesitante, Flicts sai e é seguido por Sr. X.

CENA 02: CORREDOR / INTERNA

Flicts e Sr. X estão em um longo corredor, com diversas portas dos dois lados. Flicts dá alguns passos, enquanto Sr. X está parado encostado no batente da porta do quarto de Flicts com a mão na cintura e a perna dobrada..

(SR. X – COM DESDEM) – Volta, Flicts. Volta aqui pra dentro (apontando para dentro do quarto de Flicts), esse é o seu lugar (disfarçando uma cara de nojo). O que você espera encontrar aí? As coisas atrás dessas portas são muito piores do que você pode imaginar, você não vai querer saber.

Flicts continua andando. Sr. X percebe que Flicts não vai voltar e se apressa para alcançá-lo no corredor. Flitcts caminha para uma porta roxa, como se estivesse hipnotizado pela cor. Pendurada na porta há uma placa com algo escrito que Flicts não tem tempo de ler, pois é puxado por Sr. X.

(SR. X – UM POUCO TENSO, MAS DISFARÇANDO) – Ok. É isso que você quer? Então espero que não se arrependa. Depois não diga que eu não te avisei.

Sr. X direciona Flicts para uma porta vermelha. A placa pendurada na porta diz “A atração do vermelho”. Sr. X abre a porta e convida Flicts a entrar.

CENA 03: QUARTO DE LINDA / INTERNA

Flicts entra no quarto. Linda, está sentada em sua penteadeira se olhando no espelho e penteando os cabelos. Flicts observa a moça com interesse e curiosidade. Esboça um sorriso e algum encantamento por sua beleza. Flicts se senta na cama, coberta por uma colcha vermelha, e fica observando, vidrado, o reflexo de Linda pelo espelho. Sr. X olha com muito interesse para as coisas sobre a penteadeira de Linda, e tenta se olhar no espelho com discrição, para que Flicts não o perceba. Toca os cabelos de Linda com cara de nojo.

(SR. X – COM DESDEM) – Não sai na chuva, viu, bem…

Sr. X se senta na cama, ao lado de Flicts.

(SR. X – COM FIRMEZA) – Vermelho! Alguns dizem que é a cor da coragem. Mas para ela é só a cor da vaidade.

Linda pega um espelho de mão sobre a penteadeira e se vira para Flicts e Sr. X, sem nunca deixar de se olhar e de ajeitar os cabelos.

(LINDA – DESLUMBRADA CONSIGO MESMA) – Desejo imoderado de merecer a admiração dos outros.

(SR. X – SE DEIXANDO DESLUMBRAR PELA BELEZA DE LINDA, MAS CONTRARIADO) – Qualidade do que é vão, instável ou de pouca duração. Presunção mal fundada de si, do próprio mérito.

(LINDA – DESLUMBRADA) – Vanglória, ostentação.

(SR. X) – Coisa vã, fútil, sem sentido. Presunção.

Flicts se levanta da cama encantado por conhecer a vaidade. Anda até Linda, como quem vai tocá-la, mas, na verdade, a empurra da frente do espelho para se olhar. Sr. X vai atrás de Flicts para afastá-lo dos objetos de Linda, mas também tenta se enxergar no espelho e ajeita os cabelos, ao mesmo tempo que olha para Linda com pouco caso. Flicts observa tudo sobre a penteadeira. Pega um colar vermelho sobre o móvel e o coloca no pescoço. Nesse momento, Linda abre um largo sorriso, e Sr. X puxa Flicts e o empurra em direção à porta.

(SR. X – COM DESDEM) – Beleza. É só beleza. Ninguém fica bonita para sempre. Mais cedo ou mais tarde, o que você guarda aí dentro vai atravessar sua pele, seus cabelos, e vai se refletir em um monte de rugas, espinhas e verrugas. Esses perfumes caros vão cheirar enxofre (com cara de nojo) Aí eu quero ver!

(LINDA – CONTRARIADA E INSEGURA) – É claro que eu vou ficar bonita para sempre! Meu vermelho pode ser até mais bonito do que a cor da Lua! (olhando para Flicts com raiva) De que vale uma vida sem beleza? Quem é que enxerga o lado de dentro das coisas? Você. Você está vendo o lado de dentro de alguma coisa, aqui? (apontando para Flicts) Então pare de falar besteiras! (apontando para Sr. X) De que adiantaria a Lua ser maravilhosa por dentro se o que a gente enxerga daqui fosse um queijo mofado? Não poupo esforços e nem dinheiro, faço o que for preciso para ficar mais e mais bonita. Quero beleza, conforto, luxo. Não poupo. Não poupo nada para ter o melhor!…

Flicts percebe o quanto a beleza pode ser vulnerável. Abre a porta e sai com o colar vermelho de Linda no pescoço, acompanhado por Sr. X, enquanto Linda continua a falar.

CENA 04: CORREDOR / INTERNA

Flicts fica parado no corredor, em frente à porta vermelha. Sr. X anda à sua frente.

(SR. X – DETERMINADO) – Você viu coisas bonitas demais, mas completamente podres. Agora vai ficar tomado por essa obsessão… Ela pensa que é melhor que todo mundo… (como quem está falando sozinho) Já que você pediu pra ver, agora vai ver tudo. Anda! Não fica parado aí, não! Você precisa ver só que beleza de lugar a gente vai visitar agora… (com muita ironia)

Flicts anda rapidamente até Sr. X, que está parado em frente à uma porta amarela, onde há uma placa pendurada com a seguinte frase: A luz do amarelo.
Sr. X abre a porta e entra, sem ligar para Flicts. Ficts entra em seguida.

CENA 05: GALPÃO / INTERNA

Dentro do galpão, Maximillian está sentado em um banquinho assistindo uma TV de 10 polegadas, comendo um pão seco e bebendo um copo d’água. No fundo do galpão, um grande cofre chama a atenção de Flicts, que tenta se aproximar, mas é bloqueado por Maximillian. Ele passa o braço pelo ombro de Flicts, caminha em direção ao cofre e o abre.

(MAXIMILLIAN – QUASE SUSSURRANDO) – Tá vendo isso aqui? É meu! Tudo, tudo, tudo meu.

Sr. X se aproxima sorrateiro e tenta pegar algum dinheiro de dentro do cofre, mas Maximillian o fecha com rapidez.

(FLICTS – INDGNADO) – Por que você vive assim se tem todo esse dinheiro guardado aí?

(SR. X – COM DESDEM) – Não adianta, meu caro Flicts. Amarelo pode até ser a cor do sol, da alegria e transmitir felicidade. Mas pra esse aí, o amarelo é dourado. É a cor do ouro. Do dinheiro! Desse dinheiro inútil, que não faz bem pra ninguém. Amarelo é a cor da avareza!

Maximillian enfia a mão no bolso e tira um punhado de moedas douradas. Flicts é atraído pelas moedas, que parecem brilhar.

(MAXIMILLIAN – COM APEGO, OLHANDO PARA AS MOEDAS) – Apego demasiado e sórdido ao dinheiro. Desejo imoderado de adquirir e acumular riquezas.

(SR. X – RETRUCANDO) – Mesquinhez, sovinice. Muquiranice, mesmo.

Flicts pega as moedas da mão de Maximillian, que as entrega com alguma relutância, mas satisfeito por perceber que o dinheiro o está conquistando. Uma delas cai aos pés de Sr. X, que a pega do chão e a guarda rápida e discretamente.

(SR. X – COM DESDEM) – Dinheiro… Você acha que compra felicidade? Que felicidade é essa se você não tem nem uma TV de 42 polegadas? Pra que tanto dinheiro se vai viver desse jeito, comendo mal, morando mal… e sozinho, já que é incapaz de pensar em qualquer outra que não seja acumular mais e mais dinheiro pra você, só pra você!

(MAXIMILLIAN – COM APEGO) – Eu sou a cor do sol. Mas com o que eu tenho aqui, se quiser, posso pagar para ser também a cor da Lua! (olhando para Flicts com pouco caso) Você ainda acha que eu preciso de alguém? Se eu fosse a cor da Lua, o céu seria meu. Só meu. Inteirinho meu. (olhando para cima)

(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Você sabe que não é bem assim…

(MAXIMILLIAN – DECIDIDO) – Eu não quero nada que acabe, que diminua. Eu não quero dividir. Eu não quero saber dos outros. Ema, ema, ema, cada um no seu quadrado! Eu quero minhas coisas aqui, comigo, pra sempre. Moro muito bem e como muito bem! Enxergo tudo aqui nessa TV e pão e água são mais do que o suficiente para matar minha fome.

Maximillian toma as moedas da mão de Flicts e as segura com firmeza. Flicts olha para a mão com a qual segurava as moedas e percebe que seus dedos estão amarelos.
Flicts e Sr. X são colocados para fora por Maximillian, que fecha a porta grosseiramente.

CENA 06: CORREDOR / INTERNA

Flicts e Sr. X vão andando pelo corredor.

(FLICTS – CURIOSO) – Pão e água matam sua fome?

(SR. X – SURPRESO) – Por que você quer saber de mim? Achei que estivéssemos aqui para saber de você! Pão e água matam a sua fome?

(FLICTS – CONFUSO) – Não sei.

(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Então já sei a quem você precisa ser apresentado agora.

Sr. X pára em frente à uma porta laranja, onde há uma placa pendurada que diz “A grandiosidade do laranja”.
Flicts abre a porta e entra, com curiosidade.

CENA 07: COZINHA / INTERNA

Flicts e Sr. X entram em uma grande cozinha. Sobre a pia estão bolos, tortas, salgados e frutas. Carolina esta sentada à mesa comendo um balde de pipoca, escrevendo no computador e falando ao celular (em off). Flicts corre para a pia e começa a comer um pedaço de bolo.

(FLICTS – COM A BOCA CHEIA) – Isso é bem melhor do que pão e água!

(SR. X – COM DESDEM) – Você sabia que o Laranja é cor da “Visão do Futuro”? Mas – quanta ironia! – essa daí só vê presente. Você não acredita no futuro, por isso precisa fazer tudo ao mesmo tempo, o máximo que puder? (se dirigindo à Carolina) Contraditório, não!?

(CAROLINA – ACELERADA, FALANDO AO TELEFONE E DE BOCA CHEIA) – Excesso na comida e na bebida.

Sr. X pega um pedaço de doce e coloca na boca rapidamente, enquanto Flicts observa Carolina intrigado.

(SR. X – ACELERADO) – Gula intelectual.

(CAROLINA – ACELERADA, FALANDO AO TELEFONE E DE BOCA CHEIA) – Predileção para boas iguarias.

(SR. X – IRÔNICO) – Forma de fuga das dificuldades e dos próprios sentimentos.

A essa altura, Flicts está comendo quase tudo o que está sobre a pia enquanto joga no celular. Sr. X se aproxima de Flicts, o segura e lha dá uma sacudida.

(SR. X – COM DESDEM) – Vai comer e beber tudo o que puder, Flicts? Fazer tudo ao mesmo tempo? Eu não tenho celular e nem computador porque eu não quero, acho uma perda de tempo… E esse monte de comida? Olha só o que essa fulana virou! Se comesse uma bolacha de cada vez, ao invés de 3 quilos de bolacha ao mesmo tempo, talvez não estivesse nesse estado deplorável.

(CAROLINA – ACELERADA) – Cala boca, sua coisa esverdeada! Por que você não me deixa em paz? (Sr. X faz que vai responder, Carolina corta) Ah, eu sei. Sei bem! Você não deixa ninguém ter paz porque você não consegue ficar em paz. Coitado desse aí… (apontando para Flicts) Não faz nem idéia de com quem está se metendo. Pode falar o que quiser, eu sei de mim. Aliás, eu bem sei de todos nós, tentando com unhas e dentes apagar a cor da Lua. (Flicts não dá atenção porque está entretido com um pedaço de comida) Mas o que vocês sabem de vocês, ou não sabem (se voltando a Flicts), é problema de vocês. Eu sei que eu tenho que voar para ter tempo de fazer tudo o que eu quero. Melhor correr atrás enquanto eu posso do que ficar sentada, esperando, com preguiça! (enfática, como se tivesse um pouco de raiva da preguiça – a última palavra chama a atenção de Flicts)

(SR. X, QUASE RINDO) – É, então corre atrás agora mesmo, porque logo, logo você não vai mais conseguir nem levantar dessa cadeira. Logo, logo você não vai poder cor-rer atrás, você vai ro-lar atrás! (já gargalhando) Vai acabar mais redonda que a Lua cheia…

Flicts cutuca Sr. X e Carolina, chamando a atenção de ambos e lambendo os dedos com restos de algum doce que acabou de comer.

(FLICTS – CURIOSO, DE BOCA CHEIA) – Ow, preguiça também é de comer?

(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Não, Flicts. Preguiça é o oposto disso aqui. Isso aqui é a gula, meu caro. Gula! (olhando firme para Carolina) É querer tudo ao mesmo tempo, sempre mais, sem limite, sem limite, sem limite! É não aproveitar nenhum momento da vida por pensar o tempo todo que poderia fazer mais alguma coisa além de tudo o que já está fazendo, comer mais alguma coisa além do que está comendo, saber mais alguma coisa além do que já está sabendo (falando ritmado, em soquinhos), aaah! A preguiça é ao contrário. É não quer nada em tempo nenhum. Anda, vamos embora daqui enquanto você ainda consegue andar. Capaz de daqui a pouco eu ter que te empurrar rolando.

Sr. X atravessa a cozinha em direção à porta. Pensando não estar sendo visto, pega um pedaço de bolo e enfia rapidamente na boca, mas Carolina percebe e o dedura. Antes que Flicts possa entender o que Carolina está dizendo, Sr. X o puxa correndo para fora da cozinha. No caminho, Flicts pega alguma coisa, enfia na boca e a cobre com a mão, enquanto mastiga algo aparentemente muito maior do que é capaz. Ao tirar a mão da frente da boca, seus lábios estão cor de laranja.

CENA 08: CORREDOR / INTERNA

Flicts e Sr. X estão no corredor novamente. Flicts parece querer tirar com a língua alguns pedaços de comida que ficaram presos em seus dentes. Em seguida, tira do bolso um celular, e ensaia começar a jogar, mas Sr. X toma o aparelho de suas mão e o guarda no bolso. Flicts está encostado em uma parede, bem próximo à porta de Carolina. Sr. X sai andando, Flicts não acompanha.

(FLICTS – SONOLENTO) – Vai com calma Sr. X. Pra que a pressa?

(SR. X – COM SACO CHEIO) – Ah, ninguém merece! Nem conheceu a preguiça ainda e já esta se arrastando pelo chão!?

Sr. X aponta para uma porta azul anil e caminha em direção a ela, como se puxasse Flicts à distância. Flicts caminha lentamente, com uma das mãos na barriga e a outra coçando os olhos. Pendurada na porta há uma plaquinha bem torta, com a frase “A calma do azul” escrita na diagonal, como se quem a escreveu tivesse se cansado no meio do caminho.

Sr. X abre a porta e faz uma reverência para que Flicts entre. Flicts passa tentando se apressar, mas demonstrando esforço em transportar uma barriga tão cheia.

CENA 09: SALA DE ESTAR / INTERNA

Flicts entra na sala de estar, completamente suja e bagunçada. Domingos está deitado no sofá com uma lata na mão e um pedaço de pizza sobre a barriga. Flicts observa a tudo com expressão de surpresa e um pouco de nojo. Sr. X também observa, mas com cara de desaprovação. Os dois retiram algum lixo de cima de um sofá e se sentam lado a lado.

(SR. X – COM DESDEM) – Anil… Era para ser um vencedor. Alguém impetuoso, disposto, preocupado com os outros. Mas a única preocupação desse ser é se o entregador de pizza vai entrar ou ele terá que levantar para ir até a porta. Onde cabe tanta preguiça!?

(DOMINGOS – MUITO MOLE, COMO SE O QUE SENTE FOSSE MUITO NATURAL) – Pouca disposição para o trabalho; aversão ao trabalho; inação.

(SR. X – IMITANDO A PREGUIÇA DE DOMINGOS) – Demora ou lentidão em fazer qualquer coisa.

Sr. X espera que Domingos fale, olha para ele como se pedisse lhe para ir em frente. Domingos olha para Sr. X como se quem devesse falar fosse ele; a não ver reação de Sr. X, faz um sinal molenga com a mão mostrando um dicionário jogado no chão, para que o outro leia e continue. Sr. X se abaixa, pega o livro e lê.

(SR. X – REMEDANDO) – Indolência, moleza; morosidade, negligência.

Sr. X joga o dicionário de volta no chão.
Flicts se deita no sofá, bocejando e esticando os pés por cima de Sr. X. Dá uma espreguiçada, tateia embaixo do sofá, encontra uma latinha e dá um gole.

(FLICTS – ESTRANHANDO) – Ô Domingos, isso é suco de… teia de aranha?

Sr. X se levanta com raiva, empurrando os pés de Flicts.

(SR. X – COM DESDEM) – Fica aí, dormindo para sempre. Vai ver que é esse o seu lugar, Flicts.

(DOMINGOS – COM PREGUIÇA, OLHANDO PARA FLICTS) – A cor da lua tá me dando uma moleza…

(SR. X – REPREENDENDO) – Cala a boca, seu bicho mole! Mais uma palavra e eu vou te dar um chute tão forte no traseiro que é lá na Lua que você vai parar. (faz um gesto com a mão como quem joga uma bola para cima e dá um forte chute)

Domingos chacoalha os ombros e dá uma mordida em seu pedaço de pizza.
Os três se entreolham por alguns segundos, como se um esperasse que o outro dissesse alguma coisa.
Sr. X dá uma espreguiçada discreta e engole um bocejo.

(SR. X – EM UMA EXPLOSÃO) – Nossa, você tem o dom de me tirar do sério! Essa marcha lenta, esse deixa que eu deixo… aaaah! (falando, zombando, até ficar irritado) Fica. Fica aí pra sempre, que se dane. E você, se quiser, fica também.

Flicts se levanta do sofá de sopetão, como quem quer mostrar que não quer ficar.

(DOMINGOS – MOLE) – As pessoas lá foram perderam a noção, viu, Flicts? Ta todo mundo maluco, irado com o mundo. Olha aí… (apontando para Sr. X)

(FLICTS – CURIOSO) – Irado?

Domingos aponta o dicionário no chão. Flicts faz que vai pegar, mas encontra jogada ao lado do livro uma camiseta de pijama azul anil e a veste.

(SR. X – COM SUPERIORIDADE, UM POUCO IRRITADO) – São pessoas que estão com raiva, Flicts. Que brigam por tudo e por nada. Se você não levantar logo dessa droga de sofá, vai ver a in… eu me transformar na Ira em pessoa!

Sr. X caminha rapidamente em direção a porta e sai da sala. Flicts se levanta devagar.

(FLICTS – COM PREGUIÇA) – Espera aí! Me espera! Acho que eu não vou dormir, não…

Flicts caminha lentamente até a porta e sai.

CENA 10: CORREDOR / INTERNA

Sr. X abre uma porta, bem à frente de Flicts. Olha para dentro com estranheza, como se estivesse procurando alguma coisa. Olha para o corredor, para um lado e para o outro. Flicts está começando a acelerar o passo em direção a Sr. X quando alguém passa por ele muito rapidamente, lhe dando uma trombada brusca. Flicts cai no chão e vê apenas os pés da pessoa que o derrubou andando velozmente em direção ao Sr. X.
Flicts se levanta com dificuldade, e vê Sr. X ser empurrado para fora do cômodo, por alguém que já está do lado de dentro. A porta é batida com força na cara de Sr. X e a placa que estava pendurada no topo da porta cai no chão.
Flicts corre até Sr. X, parado em frente à porta.
Tomado por uma coragem súbita e por muita curiosidade, pega na mão de Sr. X, abre a porta e entra.

CENA 11: GARAGEM / INTERNA

Flicts e Sr. X entram e observam, no fundo da garagem, Iraldo esmurrar com violência um saco de boxe.

(SR. X – QUASE SUSSURRANDO, MAS COM DESDEM) – Este é o Azul. Era para ser a cor da harmonia, mas esse azul está tão tomado pela ira que está quase preto.

(IRALDO – COM RAIVA, FALANDO ALTO) – Cólera, raiva contra alguém. Indignação. Desejo de vingança.

Flicts caminha até Iraldo e começa a esmurrar o saco também. Parece estar tomado pela raiva.

(IRALDO – COM RAIVA) – Seu inútil, não sabe bater nem em um saco! Vem brigar comigo, vem! (indo para cima de Flicts) Quero ver, quero rir da sua cara toda ensangüentada! Seu fraco! Seu cretino!

Flicts encara Iraldo com muita raiva nos olhos, e bate no saco cada vez com mais força.
Nesse momento, Sr. X está observando o próprio muque, e dando leves socos em uma parede.
Iraldo continua a bater no saco de boxe.

(SR. X – COM DESDEM) – Vai, continuem, tô achando o máximo. Tá mais tosco que comédia da Sessão da Tarde. Estão parecendo duas maricas nervosinhas, rebeldes sem causa. (zombando)

(IRALDO – COM RAIVA) – Você está pedindo, seu palhaço verde. Vou quebrar a sua cara! Você quer chamar a minha atenção para eu me distrair e sair de perto do meu saco de boxe, porque você quer o saco pra você. Eu te conheço de outros Carnavais… Você distorce tudo, mistura… Você pode misturar o que você quiser, pode até tentar encher a cor da Lua de verde, vermelho ou amarelo… Porque a Lua é burra! (apontando para Flicts), a Lua não sabe de nada. Mas o meu escuro você não confunde.

(SR. X – NERVOSO) – Pára de falar, Iraldo! O que é que você está querendo? Todo mundo vai se revoltar contra você! (gritando) Mas como eu sou imbecil, é isso mesmo que você está querendo! Anda Flicts, vamos embora daqui.

Flicts está com cara de dúvida, como quem está pensando muito. Sr. X pega em seu braço violentamente e o puxa para fora da sala. Ao sair, Flicts está com profundas olheiras azuis marinho, quase pretas.

CENA 12: CORREDOR / INTERNA

Flicts e Sr. X saem da sala abruptamente e ficam parados no corredor, em silêncio.

(FLICTS – INTRIGADO) – Tô aqui pensando… Por que todo mundo disse alguma coisa sobre a Lua?

(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Se liga, moleque. Você está viajando.

(FLICTS – UM POUCO OFENDIDO) – Eu não sou burro não, viu? O que o Iraldo quis dizer? Anda, desembucha!

(SR. X – COM SUPERIORIDADE) – Você tá louco? Tá me dando ordem? Então chega. Já passou da hora de você voltar pro seu canto.

(FLICTS – SE IMPONDO) – Não vou voltar, não. Eu não esqueci. O que é que tem atrás daquela porta?

Flicts aponta para a porta roxa, que parece brilhar.

(SR. X – TENSO) – Chega. Chega, chega, chega! Anda, volta pro seu canto, eu tô indo embora.

(FLICTS – COM DESDEM) – O que foi, coisa verde? A porta é tão bonita! O que tem ali atrás só pode ser lindo! (Flicts mexe no colar vermelho) Por que você não quer entrar? Não quer me contar, é isso? É alguma coisa que só você pode saber? Não dividir as coisas é feio, Sr. X… é pecado. (olhando para os dedos amarelos) Eu quero saber! Quero saber tudo, quero saber mais e mais! (passando a língua pelos lábios cor de laranja) Ou será que você está com preguiça de dizer? Criticou tanto o pobre coitado lá e ta fazendo pior. (puxa a camiseta azul e olha para ela quando diz ‘o pobre coitado’) Anda, X. Não vai adiantar fugir, seu marica! (como se quisesse partir para cima de X, apertando os olhos sobre as olheiras azuis marinho).

Sr. X segura Flicts e o corta, falando brandamente.

(SR. X – BRANDO) – É o mais perigoso de todos os pecados, Flicts. Depois de conhecê-lo, você não vai poder voltar atrás. Não vai poder voltar para o seu canto e esquecer que isso tudo aconteceu.

(FLICTS – CURIOSO, MAS DETERMINADO) – Eu quero ver. Você acha que agora eu ainda poderia voltar para trás e esquecer? Eu preciso acabar o que eu comecei. E você também precisa!

Flicts e Sr. X vão caminhando em direção à porta. Flicts, empolgado. Sr. X, se arrastando.

(SR. X – CONFORMADO) – Vai. Você abre a porta.

CENA 13: BANHEIRO / INTERNA

Flicts e Sr. X entram em um banheiro tomado pelo vapor de um banho quente. Virginia está na banheira, coberta por espuma até os ombros. Roupas íntimas muito sensuais e alguns apetrechos sexuais que remetem ao sadomasoquismo, como algemas e chicotes, estão espalhados pelo chão. A impressão é a de que alguém acabou de sair dali. Flicts parece hipnotizado, e se senta na beirada da banheira. Sr. X apenas observa, de pé ao lado da banheira, muito receoso, como quem se resguarda por saber que não pode se deixar envolver.

(SR. X – APREENSIVO) – Roxo. Flicts, você não precisava conhecê-la… Eu sinto muito. O que será de você? (como quem está sofrendo falsamente) Roxo é a cor do calor humano. E Virgínia leva isso ao pé da letra. É muito mais literal do que qualquer outro ser poderia ser. Ela esquenta… é só o que saber fazer.

(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE) – Exuberância da seiva.

(SR. X – SE DEIXANDO LEVAR POR VIRGÍNIA) – Cio.

(VIRGINIA – SE INSINUANDO PARA FLICTS E PARA O SR. X) – Corrupção de costumes, lascívia, sensualidade.

Flicts parece estar anestesiado, como se naquele momento tivesse perdido completamente a inocência. Olha fixamente para Virgínia e demonstra a intenção de tocá-la.

(SR. X – COM DESDEM E IRONIA) – Vai, Flicts… Se é assim que você acha que vai se encontrar, vai. Acaba mesmo com o que você é, perca o fim da essência que você ainda tem. Se perca. Se perca completamente! (falando mais baixo, como se não quisesse que Flicts o ouvisse) Você nunca soube de nada, vai saber menos ainda, agora. (satisfeito, deixando claro que, desde o início, sua intenção era confundir Flicts ainda mais, e não ajudá-lo a se encontrar)

Flicts olha para Virginia e para Sr. X. Flicts começa a entender o que está acontecendo, mas prefere esconder isso de Sr. X e continua a fingir que está confuso.

(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE) – Eu sou a única que te dá todas as coisas do mundo. Eu tenho a beleza da vaidade. (mexendo nos cabelos, tocando o próprio rosto) Eu tenho a obsessão da ira. (vai com as mãos ao pescoço de Flicts, como quem vai enforcá-lo) Eu tenho o relaxamento da preguiça… (saindo de perto de Flicts e se espreguiçando sensualmente) Eu tenho a fome da gula. (come um morango e dá um gole em uma taça de champanhe) Eu tenho o apego da avareza. (com uma toalha de banho, envolve Flicts e o aproxima com voracidade, como se quisesse ter todos os homens do mundo) Mas o que eu tenho de melhor, é a completa realização por ser tudo (com ênfase) que a inveja (olha profundamente e com desdém para Sr. X) jamais será.

Flicts olha para Sr. X sem conseguir disfarçar que entendeu o papel de X em sua história, com um misto de decepção e desprezo. Ainda assim, não consegue se desvencilhar de Virginia, que a essa altura está com as mãos em seu corpo, quase o puxando para dentro da banheira. Sr. X desvia o olhar dos dois.

(VIRGINIA – COM SENSUALIDADE E IRONIA) – Olha aqui, X, olha… Eu estou conquistando até a cor da Lua. E você sabe que uma vez aqui, era uma vez… Nem a força da Lua é mais forte do que eu.

(SR. X, NÃO SE IMPORTANDO NEM UM POUCO) – Ah, falou a rainha da cocada roxa! Que se dane…

Sr. X sai do banheiro. Flicts olha fixamente para Virginia por mais alguns segundos, pensativo, e, em seguida, a empurra, se levanta e sai lentamente. Os olhos de Flicts estão violeta.

CENA 14: CORREDOR / INTERNA

Flicts caminha rapidamente sozinho no corredor, em direção a uma porta flicts (cor), no fundo. Passa por Sr. X, encostado em uma parede, sem sequer olhar para ele. Flicts abre a porta flicts (cor) e sai.

CENA 15: RUA / EXTERNA / ANOITECER

Flicts caminha pela rua. Ao longe, a Lua está cheia, mas coberta por uma forte névoa. Flicts caminha até sumir. Quando Flicts desaparece, a Lua brilha muito.

CENA 16: QUARTO DE LINDA / INTERNA

Linda está sentada em sua penteadeira, tirando a maquiagem e observando as imperfeições de seu rosto.

(NARRADOR) – Por um momento, Linda decidiu tirar a máscara e tocar sua verdade.

CENA 17: GALPÃO / EXTERNA

Maximillian está sentado em seu banquinho segurando um pequeno cachorrinho e dando comida para ele.

(NARRADOR) – No silêncio da noite, Maximillian pôde perceber o quanto é satisfatório dividir e ajudar.

CENA 18: COZINHA / INTERNA

Carolina desliga o computador e os telefones, cobre a comida sobre a mesa e apaga a luz.

(NARRADOR) – No cair da noite, Carolina percebe o quanto é importante parar para às vezes poder prosseguir.

CENA 19: SALA / INTERNA

Domingos, que estava deitado no sofá, se levanta e começa a recolher o lixo à sua volta, com disposição.

(NARRADOR) – Domingos parece ter percebido que o fato de existir pode ter alguma razão.

CENA 20: GARAGEM / EXTERNA

Iraldo está sentado no chão, ao lado do saco de boxe, olhando um álbum com fotos de sua infância.

(NARRADOR) – Por um momento, Iraldo sente saudades da tranqüilidade de ser criança.

CENA 21: BANHEIRO / INTERNA

Virginia está de pé, abotoando um pijama de calças e mangas compridas enquanto sua banheira esvazia.

(NARRADOR) – Pode ser que Virginia tenha se dado conta de que o amor da carne só é completo com o amor do coração.

CENA 22: CORREDOR / INTERNA

Sr. X está encostado em uma parede, e percebe que ficou sozinho. Senta-se no chão e olha para si mesmo. Ele ri e se deita no chão, gargalhando.

(NARRADOR) – Talvez Sr. X consiga perceber um dia que a melhor coisa que se pode ter é a consciencia de quem se é. E ele não tem.

CENA 23: RUA / EXTERNA

A Lua cheia brilha, cortada por um não menos brilhante arco-íris.

Fevereiro 12, 2008

Pronde?

Antes de ler, tenha a certeza de que NÃO é auto-biográfico, apesar de algumas semelhanças; pode considerar como a continuação do último post; ou não.

Diga olá a uma nova pessoa.
Ao menos por educação, faça o favor.
Essa nova pessoa sou eu, muito prazer.
Mesmo que você não saiba quem sou eu, acredite, sou uma nova pessoa. De ontem para hoje, tem noção?
Não se esqueça de dar-se por feliz – muito feliz! – caso essa seja a primeira vez na sua vida em que você está me dizendo olá, pois isso denota você nunca ter sido apresentado à velha pessoa. É muita sorte, talvez você não compreenda.
Não me lembro bem onde parei, acordei meio confusa esta manhã.
Sabe quando você leva alguns segundos para lembrar quem é você?
Estava dizendo algo sobre começos e finais, mas não tem muita importância; a menos que você ache que sim.
Se for o caso, sinta-se a vontade para identificar ou inventar qualquer tipo de associação maluca entre o que eu ainda vou dizer e o que eu já disse, mas (conselho de amiga) talvez fosse interessante notar que qualquer coisa que apareça daqui para frente poderá ser vista como um complemento do que já apareceu, ou até uma explicação.
Vai depender da sua sugestionabilidade.  
Su.ges.tio.na.bi.li.da.de
(substantivo feminino): Disposição para receber uma idéia e ser por ela influenciado; característica do que é sugestionável.
 
Não boto muita fé nessa coisa de tudo estar relacionado, de a vida caminhar em harmonia com o cosmos, de tudo ter o seu porquê, o que é para ser nosso ninguém tira, tudo está escrito e acontece como deve acontecer, blá blá blá, seja você mesmo sem se preocupar com o que pensam a seu respeito, biririri, e todos esses lances de livro auto-ajuda.
Calma, não tenho nada contra os livros de auto-ajuda, simplesmente não os leio, não acredito neles.
Ponto em questão: Não sou uma pessoa sugestionável.
Sou?
Não, definitivamente não.
Né?
OK, talvez eu tenha alguma coisa contra os livros de auto-ajuda.
O fato é que, para mim, essas explicações (imagine as aspinhas que estou fazendo com os dedos ao dizer isso) são coisas para gente acomodada.
Decerto é mais macio e quentinho pensar “Fui atropelada e quebrei a perna porque tinha de ser assim” do que “Alguém pega a muleta pra mim porque eu vou atrás daquela vaca-que-não-devia-dirigir-nem-carrinho-de-bate-bate pra quebrar as costelas dela a golpes de perna engessada!”. Daria algum trabalho achar a vaca – talvez fosse preciso ir à puta que pariu, já que de tanto a mandarem para lá é provável que já tenha fixado residência.
Além disso, tenho uma coleção invejável de provas, das mais diversas cores, tamanhos e modelos, de que não, nem tudo tem uma razão de ser, harmonia com o cosmos é que nem gato com sete vidas (experimenta matar um gato) e sim, tiram o que é nosso, ôpa se tiram!
Apareça lá em casa qualquer dia e poderemos passar uma tarde agradável bebendo chá de hortelã e apreciando essa reunião quase ordenada de questões pessoais resolvidas, não resolvidas e mal resolvidas, para todos os gostos e estilos.
Certo, característica nº1 citada e justificada: Não sugestionável.
Ou pouco sugestionável.
Ou eventualmente sugestionável.
Aqui, o direito de escolha é muito preservado.
O que mais quer saber?
Posso falar sobre meus belos olhos azuis.
Não há dúvidas de que falaria se os tivesse.
Podemos esquecer os olhos, olhos castanhos não têm a menor graça.
Como eu queria olhos azuis!
Será que algum dia alguém terá a brilhante solução para mudança da cor dos olhos? Lentes coloridas são de doer.
Não gosto de ter olhos castanhos, assim como não gosto dos cabelos irritantemente lisos que residem na minha cabeça. Tentei permanente uma vez, mas Cauby foi, de longe, o melhor dos apelidos que ganhei.
Também ficaria feliz por ser mais alta. Qualquer uma ficaria, eu acho.
Tudo bem, me conformo. Mas só por saber que integro a maioria.
Na verdade, poderia reclamar da largura de meus quadris e da ausência de carne, massa múscular, ou o que quer que seja em meu corpo, que pode ser comparado a uma almofada sem almofada.
A piada da nadadora está ultrapassada, desista.
Mas saiba que consigo enxergar o lado bom das coisas, viu.
Posso me esbaldar de comer picanha cheia de gordura e despender toda minha atenção ao meu problema com o colesterol, já que não há motivos para me preocupar com pneus ou banhas ou pelancas.
Percebo, também, que não ter bunda é ter alojamento para um número muito reduzido de celulites sem terra, e que um peito que não existe atravessará os séculos sem jamais ser capaz de segurar, ou pior ainda, esconder um lápis de cor.
Viva!
Mas auto-depreciação não é comigo, apesar de existir a chance de você estar começando a achar que sim.
Só sou um tanto quanto autocrítica.
Tá, sem hipocrisia. Sou um pouco outrocrítica, também.
Depois de dizer que por outrocrítica você pode compreender que eu seja bastante cricri em relação aos outros, confesso, sem orgulho, que sou bem mais outrocrítica do que autocrítica. 
Acontece, vai.
Característica nº2 assumida: Cricri. Implicante. Intolerante. Chega.
Talvez às vezes eu possa ser um pouco sarcastiquinha, mas aí é questão de ocasião. Não costumo fazer nada sem motivo.
Ou pode ser que eu não seja, nunca, jamais.
Exercite o poder de escolha que lhe foi dado e tire suas próprias conclusões. Depois me avise.
Imperativo é um modo verbal tão bonito, não é?
Se essa última frase que eu disse antes de dizer sobre a beleza de como eu a disse tivesse sido dita em segunda pessoa do singular, eu teria dito “Exercita o poder de escolha que te foi – nesse caso, ‘fora’ soaria melhor – dado e tira tuas próprias conclusões. Depois me avisa”.
Mais bonito, muito mais, muito muito mais!
E tenho dito (palmas para o verbo dizer).
Característica nº3 facilmente identificável: Levemente autoritária. Só levemente.
Basta fazer o que eu, docemente, pedir.
Só uma pessoa com alguma tendência ditatorial seria perdidamente apaixonada pelo modo imperativo.
Analisando um punhado de fatores a meu próprio respeito, penso que se um dia eu quisesse governar alguma coisa eu seria a verdadeira ditadora do povo.
Explico.
Quando eu quero alguma coisa, eu quero mesmo. Aí é bom que façam – bom para mim e para quem faz.
Sentiu só a ameaça? Era só para colocar uma pressão, já pode relaxar; o máximo que vai acontecer se você não fizer o que eu quero é eu dar um chilique.
Em contrapartida, sou mole, uma verdadeira panaca.
Quer palavra mais panaca do que panaca?
Amigos, parentes e até desconhecidos conseguem de mim o que querem. Ajudas, favores, dinheiro, coisas emprestadas, ombro, companhia, tudo.
Quase tudo, actually. Algumas coisas poucas pessoas conseguem, mas pode ser bom falar sobre isso depois.
O importante é que meu coração é grande e generoso. Ponto para mim.
Agora cansei de ficar deitada em meu próprio divã.
Certo que sou muito mais complexa que isso, mas como a próxima das minhas características a ser abordada era a impaciência…

(continua)

Janeiro 15, 2008

Eu lagartixo, tu lagartixas, ele lagartixa.

Todo começo é difícil. É, é difícil sim. Uns mais e outros menos, mas é sempre difícil. No entanto, eu tenho quase certeza de que finais são piores. Quase não, certeza. Pensando bem, certeza absoluta, com o perdão da redundância.

Começos são tensos pelas dúvidas que carregam, pelo medo do desconhecido, pelos tropeços que fatalmente ocorrerão; mas são coloridos pelas perspectivas, pelas possibilidades, pelo novo objetivo. Começos dão energia, enchem de gás, renovam e, algumas vezes, até renascem.

Mas os finais…

Finais já vêm carregados de sacocheismo, de insatisfação, de cansaço (e de uma série quase infinita de descontentamentos).
Como se não bastasse, ainda existe a incerteza sobre colocar de fato um ponto final no tal final, e, uma vez que colocado, se adaptar à ausência daquilo que, por fim, teve fim.

No caso de o final não ser uma questão de opção, pode ser que não exista essa saturação, mas pode restar um buraco, uma falta, uma saudade doída.

Como se já não fosse o suficiente, sobra toda a insegurança típica dos finais, para dar aquela força.

Apesar de que a insegurança é típica dos começos, também – sejamos justos, afinal.

Qual é o lado bom do final?

Eu pergunto e eu respondo: A chance de um novo começo. Né? Algo errado? Talvez.

Se o lado bom do final é formado pelas novas possibilidades e perspectivas, suspeito que esse tal lado simpático seja propriamente o começo. Ou talvez o recomeço, que é um começo do mesmo jeito. Certo? Eu acho que sim.

Existe, ainda, um ponto fundamental a ser considerado: Os começos são muito mais independentes, senhores de si, donos da situação.

Simples.

Existe começo sem final?

Sim, definitivamente.

Existe final sem começo?

No way.

Já se convenceu de que começos são muito mais atraentes do que finais?

A questão-problema instala-se no momento em que o começo só pode existir com a condição de um final o dar as boas vindas.

Como assim?

Existem três tipos de começo.

1 – O óleo fator 2, que não necessita de final nenhum;

2 – O spray fator 15, que é capaz de colocar um final automático na situação anterior;

3 - O creme fator 50, que pede um processo de finalização antes de poder aparecer.

Entendeu?

Não?

OK, não há problema em dar exemplos.

Você quer aprender a falar italiano. Comece a fazer aulas e pronto; o fato de você estudar italiano não destruirá nada automaticamente e nem pedirá para que você acabe com coisa alguma antes de ter o direito de saber que colher, spoon e cucchiaio querem dizer exatamente a mesma coisa. É simples como ter a pele resistente o bastante para poder ir à praia ao meio-dia no começo de janeiro sem esquentar a cabeça com o sol (o trocadilho foi um mero acaso).

Agora vamos supor que você queira se casar. Tenha consciência de que um casamento colocará, pelo menos em teoria, um final automático à sua vida libertina. Dê alô a um começo sobre o qual será necessário ponderar prós e contras, como quando você vai à praia ao meio-dia no começo de janeiro, mas sabe que, com sua pele sensível, ficará com os ombros ardendo.

Já no caso de você querer trocar de marido (ou recomeçar sua vida libertina, o que pode vir a ser um pouco mais motivador), você deverá, sem choro nem vela, executar o processo de finalização de seu casamento. E isso te trará tantas complicações quanto lagartixar na areia ao meio-dia no começo de janeiro compartilhando do mesmo tom de pele de um ovo cozido.

Tudo certo agora?

Então acho que já posso dizer que também existem três tipos de final, não posso?

1 – O semifinal, vulgarmente conhecido como pausa ou intervalo (em algumas regiões é também chamado de tempo);

2 – O final-final, ou seja, aquele que já-vai-fechar-não-adianta-chorar (depois que fechou já era, meu bem, não abre nunca mais);

3 – O final-final-semifinal, que, como o nome já diz, pensa que era um final-final, mas, no final, era mesmo um semifinal.

Em tempo: Seja o final um semifinal, um final-final ou um final-final-semifinal, um começo é sempre – reforço – estritamente necessário.

Estando você convencido ou não, acredito mais do que nunca que os finais são mesmo menos interessantes que os começos, então deixemos os exemplos pra lá.

Voltemos à questão-problema.

(continua)

  

Janeiro 9, 2008

Nós que aqui estamos por vós esperamos.

Já viram esse filme? Pois procurem, é ótimo.

Não fiz um post de despedida do ano velho e nem de boas vindas ao ano novo. É que as coisas estiveram particularmente agitadas, viu.

Em suma, o Natal foi uma reunião de gente louca, com todos especialmente inspirados para a realização de atividades absurdas/bizarras. Entenda isso como quiser.
Dica: Quando estiver com vontade de rir, mas rir muito, tente explicar um trocadilho em Português para um estrangeiro que não fala Português.
As férias foram tranquilas, ótimas para descansar. Na verdade, mais tranquilas do que eu gostaria, mas está tudo bem, obrigada. 
Por sua vez, a festa de ano novo seguiu a linhas das férias, sem ser visitada por nenhum acontecimento espetacular. Mas isso não é ruim, não; só é tranquilo, mesmo.

Antes de achar que eu fiquei louca, eu digo que o que esteve particularmente agitado foi o período que sucedeu o ano novo e as férias – porque é óbvio que eu não sentaria na frente do computador para escrever no blog uma vez que eu estava na praia.
Em três dias, minha vida quase mudou completamente, mas não mudou.
“E o pequeno bote do indiozinhos, quase, quase virou (mas não virou!)”. Isso explica bem.
Mas ainda não sei se eu quero falar sobre o assunto, não consegui digerir tudo até o momento. Então, próximo tópico!

O Thiago já fez isso no blog dele (o ‘Eu Vezes Eu’ ali do lado), mas eu também vou postar a brincadeira do ano. 
É versão super power de “Andamos todos iguais”. Todo mundo já brincou de Andamos, né? (percebam a minha intimidade com a brincadeira)
Claro que já. Claro.
Pois bem, a versão usual, como todo mundo sabe, é “(andando) Andamos todos iguais (um pulinho), andamos todos iguais (outro pulinho) (para de andar) prum lado, pro outro, pra frente, pra trás, andamos todos iguais”.
A idéia é que várias pessoas façam isso juntas, naturalmente, senão não seria andamos todos iguais, e sim, nós dois andamos iguais (igual seria melhor, nesse caso, da mesma maneira, hã?), ou eu ando sozinha igual a mim mesma já que eu sou uma só. Whatever…
A questão é que fomos pra Santos uma noite das férias, encontrar a Nina e o Nestor, um dos meus casais preferidos no mundo. Depois de andarmos a cidade inteira atrás de algum lugar aberto (ponto fundamental: 1º de janeiro), acabamos em um boteco. Aí, só nos restava tomar cerveja, né?
Na hora de ir embora, tínhamos um longo caminho até o carro, e quase todos nós já tínhamos deixado Bagdá para trás há algum tempo. Foi quando eu resolvi andar igual sozinha. O Anderson tentou brincar comigo, mas ele estava fazendo tudo errado, a brincadeira já estava ficando ofendida, sabe? Quando ele desistiu, o Thiago resolveu tentar. Em pouco tempo, conseguiu; mas – pasme! – achou sem graça. Vê se pode alguém achar Andamos sem graça! A musiquinha já estava quase em depressão pela opinião da pessoa sobre ela, quando recebeu uma homenagem fabulosa: Sua versão super power!
“Andamos todos iguais
Andamos todos iguais
Prum lado e pro outro
Pra frente e pra trás
Gire um pouquinho
Rebole um pouquinho
Bata as duas mãos no chinelo
Esfregue a barriga
Imite o Claudinho
Murmure agora
Você é capaz!”
(aí tem que continuar andando e seguindo os passos, mas fazendo só humm huummm; aí, quando acaba de murmurar, “agora em silêncio, você é capaz!”, e faz tudo de novo em silêncio)
Não é o máximo????? Sem dúvida, é a brincadeira do ano. E eu e o Thiago é que somos responsáveis pela criação dessa obra prima.
Tá bom, o Thiago é (bem) mais responsável que eu, mas se eu não tivesse dado muita risada a cada frase que nascia, não teria ficado tão incrível. Incentivo é tudo, gentê!

Quando voltei pra São Paulo, achei que eu não soubesse mais dirigir. Não, eu não achei que agora eu só saberia me locomover brincando de Andamos. Mas eu sabia, ufa! Já estava pensando como ia fazer pra vender meu carro…

E hoje eu estou trabalhando. Levei três dias para colocar as duas semanas de férias em ordem. Penso que eu poderia ter duas semanas de folga, trabalhar três dias, ter mais duas semanas de folga, trabalhar mais três dias, e minha vida estaria sempre ok. Faz sentido.

Feliz 2008!

Dezembro 18, 2007

Por obrigação.

Como é péssimo fazer as coisas por obrigação! – Melhor avisar de antemão que estou tendo um dia ruim, fechou? Então vamos lá.

Como é péssimo fazer as coisas por obrigação! Às vezes eu acho que nunca vou conseguir achar isso normal. E é aí que eu começo a pirar, pensando que a vida é, por si só, uma obrigação; portanto, se eu não conseguir conviver sossegadamente com obrigações, eu jamais terei uma vida isenta de conflitos internos. E agora, José!?

Mas é um lixo, obrigação é um lixo! Obrigação de qualquer espécie – tarefinhas, costumes, padrões, aaaah!

Tô revoltadinha, né? 

A questão é que eu estou mesmo com o saco cheio de fazer o que eu não quero e de quererem que eu faça o que eu não quero.

Liberdade, minha gente!

Vamos pensar em todas as obrigações que temos. A começar pelo trabalho, lógico. O trabalho é, talvez, nossa maior obrigação; mas eu não reclamo de trabalhar, não mesmo. O problema é que o trabalho é a mais infelxível das obrigações, e as obrigações inflexíveis são as piores obrigações que existem.

É isso!!! Se as obrigações fossem bacanas, flexíveis, compreensivas, condescendentes… eu não acharia ruim cumprí-las. Uma coisa meio a meio, manja? Um pouco da insistência da Sra. Obrigação e um pouco da minha vontade. É justo, vai? Mas nããão, a infeliz é 100% senhora das situações. Que raiva dela!

Uma amiga minha falou esses dias sobre ter mudado de postura. Antes, era meio doida na maneira como se vestia, andava de tênis, cabelo curtinho e óculos, comia um monte de porcaria. Agora, anda de salto alto, não dispensa o glosssss e lê rótulo de comida pra ficar contando caloria. Tá vendo? Tudo isso é obrigação!

Quando a gente veste o que nos deixa confortáveis, amarra o cabelo e dispensa os paetês, e come o que gosta pelo simples prazer de comer, estamos nos desobrigando de diversas chatisses. É, porque também existem as obrigações desobrigáveis, aquelas que só são obrigações se a gente as aceitar como tal. E o pior é que a gente quase sempre aceita, sem nem perceber. A obrigação de estar sempre magra, com uma roupa especial (optei por esse termo porque essa é uma questão que varia muito de pessoa para pessoa – umas querem vestir marcas, outras querem estar estilosíssimas, outras, chiquérrimas, outras, ainda, querem mostrar pernas, peito, bunda…) e com um cabelo brilhante e hidratado, de ter um carro do ano… e um blábláblá infinito.

Eu não quero revolucionar o mundo e nem pretendo que esse post fique com cara de auto-ajuda “Viva sua vida, seja você mesmo, aproveite seus dias e seja feliz!”; na verdade, essas poucas linhas são apenas um sinal de que eu estou mesmo precisando de férias.

Dezembro 6, 2007

Palíndromo

Estava eu, ontem, tomando uma cerveja num boteco na São Gabriel com uma amiga que eu não via há muito tempo e algumas amigas dela. Uma dessas amigas, em um determinado ponto da conversa, disse que suas duas palavras preferidas em Língua Portuguesa são “obsoleto” e “palíndromo”. Segundo ela, “obsoleto” é bonito porque tem um quê de grego… Enfim, eu não acho “obsoleto” uma palavra bonita nem foneticamente e nem em significado – aliás, acho que tudo quanto é pseudo-intelecualóide-da-cauda-amarela que gosta que os outros achem que ele leu o dicionário usa essa palavra na tentativa de exemplificar o feito, mas esse não é o ponto. O ponto é o palíndromo.

Para quem não sabe, um palíndromo é algo que se verificado do começo para o fim ou do fim para o começo, é capaz de dizer a mesma coisa. Palavras, frases ou orações, devendo qualquer sinal ortográfico ser desconsiderado. Por exemplo, talvez o palíndromo mais babaca do mundo: “Até cubanos metem só na buceta.”. Leia essa frase normalmente e depois de trás para frente e terá entendido o palíndromo. No entanto, nem só desse tipo de cretinice vivem os palíndromos.

          Palíndromo do amor total

Ávido?
Amá-la na taba, no toco da casa,
no muro, no paço, na poça,
na maca, na livre sala,
servi-la na cama,
na copa, no capô, no rumo,
na saca do coto, na bata, na lama…
Ó diva!

(Rômulo Marinho)

Bonito, não? 

Tem palíndromo poético, como esse aí de cima, palíndromo idiota, como a frase dos cubanos, ridículo (Oi, rato otário.), engraçado (A pateta ama até tapa.), absurdo (A dama admirou o rim da amada.), besta (Subi no ônibus.)… É divertido, procurar palíndromos pode ser um passatempo e tanto.

Aí eu digo que os palíndromos são, também, anagramas (mas não vai pensando que todos os anagramas formam palíndromos!). E os anagramas são a ligação mais próxima entre o Português e a Matemática. E agora eu não vou explicar ou exemplificar anagramas, mas sim, dizer que eu ando anagramítica ultimamente. Algo com o mesmo efeito de uma conta de dividir com dois números na chave feita por um estudante de Rádio e TV.

Eu sou comunicação, arte, calor, rítmo, sonho, criatividade, imaginação, intensidade. Eu sou Português. Mas devo admitir que estou exata, completamente matemática. Ando fantasiada de anagrama ultimamente, portanto. De palíndromo, para ser mais precisa, já que começando pelo fim ou pelo começo, vê-se a mesma coisa.

O drama da situação é que eu não gosto de sentido (no sentido de fazer sentido), ainda mais quando é o mesmo a partir de qualquer ângulo – lembro, inclusive, de já ter dito algo sobre a minha lógica ser frequentemente diferente da lógica do mundo. Eu gosto de confusão, de farra, de novidade, de viagem, de bagunça. De olhar do começo para o fim e ver uma coisa; depois, voltar pro mesmo começo e chegar no fim por outro caminho, ou em outro fim. Mas estou palindrasticamente (com o perdão do trocadilho) ordenada, sem encontrar nem mesmo o mar de possibilidades dos anagramas, até os das palavras mais curtas, que, apesar de muito mais matemáticos, são muito mais amplos que os benditos palíndromos.

 Vou aproveitar o ensejo para recomendar um curta que, por acaso, chama-se “O Palíndromo”. Não precisa explica a idéia do filme, né? Eu não tenho acesso ao Youtube aqui no trampo (oh yes, i´m working!), mas procura lá que tem e vale a pena.

No fim, esse encontro de ontem acabou me rendendo um pouco mais do que esse post. Mas em outra ocasião eu conto.

Novembro 30, 2007

2

Ainda estou em fase de adaptação com isso aqui, então não espere um post muito profundo ou filosófico ou poético ou crítico.

Descobri que dá para criar várias paginazinhas dentro do blog, aí eu fiz isso: Quem? Mas o que é isso, afinal? Que mais? e Fim. – se você faz parte das pessoas que dispensavam essa explicação, sóri*; se não, ‘não tem por onde’. Particularmente, achei que a página ‘Fim.’ ficou especialmente fofa – se você é do tipo de pessoa que detesta coisas fofas, considere que a página tenha ficado… agradável, sei lá.

Sabe o que eu queria? Na página “Que mais?” (ok, ainda está em construção, but it wont be long), comentem com as recomendações de vocês, eu vou amar! Eu falo pelos cotovelos sobre as coisas que eu gosto, mas eu também adoro saber do que os outros gostam, é o jeito mais legal de conhecer coisas novas.

Sobre os meus links: Só tem coisa bacana! Uns eu conheço e leio há muito tempo, outros acabei de conhecer e amei, mas, acredite, vale a pena gastar uns minutinhos com todos. Eu recomendo especialmente o Flickr do Ceará (Fuzar) e o blog Revista Banga. E, claro, também sugiro um passeio pela parte levemente fútil, principalmente se você estiver num momento de crise existencial, depressãozinha ou rebeldia sem causa (comigo funciona e é por isso que esses links estão aí, já que eu sou uma rebelde sem causa e vivo tendo crises existencias – tô até pensando em cortar uma franja e começar a ouvir Fresno).

Então tá, por hoje é só. No próximo prometo que engrena.

*Sóri - Expressão utilizada por indianos residentes em Londres para se desculpar por alguma coisa (e mais uma daquelas manias que a gente pega com os outros; e não vem, não, que você também pega, todo mundo pega).

Novembro 27, 2007

Penso, logo não descanso.

Eu penso tanto, tanto, tanto… É, definitivamente, um desperdício guardar tudo dentro da minha cabeça.

Não, isso não significa que tudo o que eu penso seja útil. Não mesmo. Não mesmo, mesmo. Mas o fato é que às vezes até o inútil pode vir a ser útil, vai saber.

Uma conclusão à qual eu já cheguei na vida é que a lógica do mundo quase sempre é diferente da minha lógica. Portanto, pra quem gosta de lógicas ilógicas talvez seja bacana passar por aqui. Ah, vá, nem sempre a minha lógica é ilógica. Na verdade, eu acho que quase sempre a lógica do mundo é ilógica. É lógico, se a minha lógica é, em quase todos os aspéctos, diferente da lógica do mundo, eu só poderia achar a lógica do mundo ilógica – não seria lógico que eu achasse a minha própria lógica ilógica, se assim fosse não seria a minha lógica. Certo?

Também devo dizer que muitas estorinhas e aspirações poéticas povoam essa cabeça, aí eu resolvi dividir. Eu sempre acho medíocre, mas como o que mais existe no mundo são opiniões divergentes, há alguma chance de funcionar. Se passar algum tempo e eu perceber que ninguém mais vem aqui, eu prometo que eu entendo o recado. E se eu vir que está dando ibope, publico um livro. Rá-rá!

Textos de apresentação são, normalmente, pobres em conteúdo. Já que, como pode-se notar, esse não vai ser diferente, cê que tá lendo tá convidado a voltar amanhã ou depois.